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  • Brasília nasceu para unir um país dividido, diz historiador francês

    Brasília nasceu para unir um país dividido, diz historiador francês

    A fundação de Brasília, há exatos 65 anos, não foi apenas uma façanha arquitetônica ou uma aposta no desenvolvimento do interior do país. Para o historiador francês Laurent Vidal, foi, antes de tudo, um gesto político concebido para reconstruir o tecido rasgado da nação brasileira.

    Candangos comemoram a conclusão de obras para a inauguração de Brasília: sem legislação trabalhista, jornadas superavam as 18 horas na reta final

    Candangos comemoram a conclusão de obras para a inauguração de Brasília: sem legislação trabalhista, jornadas superavam as 18 horas na reta finalArquivo Público do DF

    “Naquele momento de um país profundamente dividido, Juscelino Kubitschek e seus conselheiros começaram a pensar que a construção de Brasília ofereceria mesmo a oportunidade de reconstruir o tecido rasgado da nação brasileira. Por isso, ele pensou a construção de Brasília como uma obra de conciliação nacional”, diz o historiador nesta entrevista exclusiva ao Congresso em Foco.

    A mudança da capital, discutida por mais de 150 anos e prevista desde a Constituição de 1891, ganhou força justamente no momento em que o país enfrentava forte instabilidade institucional. Ao longo da história, explicou o historiador, a ideia de construir uma capital longe do litoral, no Planalto Central, mostrava-se eficaz como projeto simbólico para apaziguar crises e desviar a atenção de outros problemas políticos. Mas ninguém, até então, havia demonstrado real interesse em executá-la.

    Professor de história contemporânea da Universidade de La Rochelle, na França, Vidal é autor do livro De Nova Lisboa a Brasília: a invenção de uma capital. Para realizar sua pesquisa, o historiador e sócio correspondente estrangeiro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro mergulhou em arquivos, discursos e bastidores que moldaram a nova capital.

    Simbolismo político

    A investigação revelou episódios pouco conhecidos, como o fato de que Juscelino só abraçou a ideia da transferência da capital após constatar, por meio de pesquisas de opinião, a necessidade de um símbolo popular para sua campanha. “Quando formaliza sua candidatura à Presidência da República, em nenhum momento ele pensa na mudança da capital.”

    A situação mudou quando sua equipe de campanha percebeu que o Plano de Metas sua principal plataforma eleitoral não era bem compreendido e tampouco despertava entusiasmo no eleitorado. A promessa da nova capital foi então lançada num comício cuidadosamente encenado em Jataí (GO), quando um cidadão o questionou sobre o artigo constitucional que previa a transferência. Ele se aproveitou da capacidade histórica da ideia de mudança da capital em dar uma coesão nova na sociedade.

    Outra curiosidade: a escolha da data de inauguração não teve relação com o cronograma das obras, mas sim com seu simbolismo político. O dia 21 de abril reunia, ao mesmo tempo, a fundação mítica de Roma, a véspera da chegada dos portugueses ao Brasil e o martírio de Tiradentes unindo Império, colonização e República em um só gesto.

    Ainda assim, Brasília não nasceu sem dor: os trabalhadores enfrentaram jornadas exaustivas, ausência de direitos trabalhistas e até massacres silenciados pela euforia nacional. Para Vidal, o verdadeiro retrato de Brasília está nessa contradição: “Essa modernidade foi construída por pessoas que representavam o arcaísmo que o Brasil queria apagar. Afina, houve uma dialética entre modernidade e arcaísmo. Não tem modernidade nem arcaísmo. Pra mim, como historiador, é um espelho maravilhoso do Brasil, onde se articulam vários níveis de realidade e de imaginário. Essa construção mestiça nasceu na luta e a luta continua”.

    Veja a íntegra da entrevista:

    “O Rio olhava a construção de Brasília de muito longe, pensando que nunca ia acontecer e dar certo”, conta Laurent VidalArquivo pessoal

    Congresso em Foco Como surgiu, para o senhor, a ideia de investigar a história de Brasília?

    Laurent Vidal O meu primeiro contato com Brasília foi em 1989. Estava trabalhando com o projeto de remoção das invasões no governo Joaquim Roriz que deu nascimento a Samambaia. Ao entrevistar pessoas nas invasões, sobre os motivos de sua presença em Brasília, me dei conta de que muitos, sobretudo as pessoas mais humildes, consideravam Brasília como uma cidade onde era possível recomeçar a vida. Buscando as origens desse imaginário, comecei a me dar conta de que Brasília sempre esteve associada a esse imaginário da renovação da vida, da sociedade, da nação e do Estado. Esse conjunto de discursos me levou a me perguntar quando surgiu essa ideia de deslocar a capital do litoral para o interior.

    E quando surgiu?

    Evidentemente eu não era o primeiro a trabalhar com isso. O próprio governo JK pagou um conjunto de funcionários para trabalhar sobre os chamados antecedentes históricos. Tem todo um conjunto de livros e publicações reunidos pelo governo JK para mostrar estes antecedentes históricos. O próprio Juscelino estava muito mobilizado para inscrever seu gesto em uma longa história de projetos de mudança da capital. Então comecei a trabalhar sobre os diversos projetos. O primeiro grande projeto nasce com a chegada da Corte portuguesa, em 1808. Por motivos de segurança, uma cidade portuária poderia ser facilmente atacada por uma nação estrangeira. Conselheiros diziam que seria importante transferir a capital para um lugar mais seguro. Ao mesmo tempo, começa a surgir em torno dessa ideia de interiorização da capital o discurso de que o Brasil vai enfim tomar posse de suas potencialidades. Uma capital mais central vai facilitar a valorização econômica e social do território. Aparece aí também outro elemento: uma capital mais central será uma capital verdadeiramente brasileira, não apenas uma capital europeia como foram Salvador ou Rio de Janeiro, fundadas por colonizadores portugueses. Aos poucos, nestes projetos de mudança da capital, eu comecei a ver um folheado de ideias e argumentos: interiorizar para proteger a cabeça do Estado de uma possível ameaça estrangeira, aproveitar-se do território e de suas potencialidades, construir uma nação e uma identidade nova, verdadeiramente brasileira.

    Mas, desde as primeiras discussões até a inauguração da cidade, se passaram em torno de 150 anos. O que fez a cidade, enfim, sair do papel?

    Em muitos momentos da história brasileira essa questão da transferência foi colocada. Entrou na Constituição de 1891, houve comissões exploradoras para verificar. Ao mesmo tempo em que houve debates acirrados, fui obrigado a constatar que ninguém queria afinal levar a cabo esse projeto. A ideia de mudança da capital funcionava muito bem como projeto: tinha capacidade de apaziguar crises, debates fortes dentro da sociedade brasileira, desviando os problemas. Quem vai recuperar essa ideia é o próprio Juscelino. Quando formaliza sua candidatura à Presidência da República, em nenhum momento ele pensa na mudança da capital. Mas teve a inteligência de mudar durante a campanha. Juscelino foi o primeiro político no Brasil a utilizar os recursos das pesquisas de opinião (inventados nos Estados Unidos). Ora, quando seus conselheiros encomendaram pesquisas de opinião para saber o posicionamento do eleitorado em torno de sua candidatura, se deram conta de que o famoso Plano de Metas era muito técnico, e não suscitava adesão popular. Analisando os resultados, Juscelino e seus conselheiros concordam sobre a necessidade de encontrar uma imagem fácil de entender para ilustrar a intenção do seu programa. Aí surge a ideia da mudança da capital para o Planalto Central.

    Foi uma decisão baseada também no marketing político?

    Exatamente: ela surge dentro de uma reunião de conselheiros, para relançar uma campanha eleitoral atônica. Decidiram encenar sua irrupção na campanha: organizaram um comício em Jataí, Goiás, chamaram a imprensa avisando que um anúncio importante seria feito ali. No fim do comício Juscelino deu a palavra à plateia, como tinha o hábito de fazer. Uma pessoa se manifesta: “o senhor diz que vai respeitar a Constituição? Tem um artigo que fala que o Brasil vai transferir a capital para o Planalto Central. O senhor vai aplicar esse artigo?” O Juscelino fingindo a surpresa, respondeu: “Senhor, falei que ia respeitar a Constituição, então, vou transferir a capital se for eleito”. No dia seguinte, a imprensa podia comunicar sobre este novo elemento da campanha.

    Encontrou o mote político que faltava…

    Ele se aproveitou da capacidade histórica da ideia de mudança da capital em dar uma coesão nova na sociedade. Evidentemente, ele poderia, uma vez eleito, ter deixado de lado essa ideia não seria o primeiro político a esquecer uma promessa. Só que nesta época, a eleição era em outubro e a posse apenas em fevereiro. O intervalo abria uma temporalidade complexa. A eleição do Juscelino foi contestada, e suscitou tentativas de golpes. E houve até um golpe chamado de legítimo por parte do general Lott para garantir a posse de JK. Naquele momento de um país profundamente dividido, Juscelino e seus conselheiros começaram a pensar que a construção de Brasília ofereceria mesmo a oportunidade de reconstruir o tecido rasgado da nação brasileira. Por isso, ele pensou a construção de Brasília como uma obra de conciliação nacional.

    JK, com sua saudação característica, em frente ao Congresso Nacional

    JK, com sua saudação característica, em frente ao Congresso NacionalArquivo Público do DF/Gervásio Batista

    Mas a construção da cidade enfrentou também muita resistência. Quais eram os principais opositores da ideia?

    Enfrentava resistência por parte da oposição, da UDN, que considerava que a construção da capital seria uma catástrofe do ponto de vista econômico, enfrentava resistência de uma parte dos oficiais militares também, por motivos nacionalistas desta vez, criticando o apoio dos Estados Unidos por exemplo. Ao mesmo tempo que enfrentou estas oposições, conseguiu criar, em torno da construção de Brasília, uma esperança popular. Era um homem que tinha uma energia catalizadora muito forte.

    Logo no início da construção de Brasília, Juscelino pediu à Câmara dos Deputados que escolhesse a data de inauguração da nova capital. A data não foi decidida em função do avanço da construção, mas de um projeto político. Um deputado de Goiás escolheu 21 de abril porque, para ele, havia três justificativas: a cidade de Roma foi, segundo a lenda, fundada em 21 de abril; os Portugueses teriam avistado sinais da proximidade da terra no dia 21 de abril de 1500, mas; e havia também a referência à morte de Tiradentes. A data permitia inscrever a cidade na continuidade de uma cultura latina e católica (simbolizada por Roma) e da obra cultural da colonização portuguesa, enquanto manifestava também um espírito independência.

    E como o Rio de Janeiro reagiu à ideia de perder o posto de capital nacional?

    O Rio olhava a construção de Brasília de muito longe, pensando que nunca ia acontecer e dar certo, sobretudo, porque um presidente não podia ser reeleito. A população pensava que não ia ser inaugurada e o canteiro de obras ia durar anos e anos. A partir do fim de 1959, a imprensa carioca começa a dizer que não tinha condições para inaugurar a capital em 21 de abril de 1960. Mas Juscelino e o governo não recuavam.

    A partir deste momento, na medida em que começou a ver que poderia perder a qualidade de capital do Brasil, a oposição popular começou a ficar muito forte. Mas de novo, houve um trabalho dos conselheiros de Juscelino para teatralizar este momento e evitar que o presidente saísse da antiga capital debaixo de vaias.

    Festa em frente ao Congresso para a inauguração da cidade em 21 de abril de 1960

    Festa em frente ao Congresso para a inauguração da cidade em 21 de abril de 1960Arquivo Público do DF

    Como?

    Em outro livro, As Lágrimas do Rio, sobre o último dia do Rio como capital, eu mostro como Juscelino encenou esta saída, fechando as portas do palácio, chamando o povo para testemunhar o momento, criando um tempo excepcional. Frente a este grande teatro de uma nação que reencena seus mitos fundadores, as críticas não eram entendidas. O fascínio pela esperança de Brasília ficou maior do que o barulho das críticas. Ele organizou um carnaval da despedida. A população estava com receio de perder essa qualidade de capital e, ao mesmo tempo, fascinada pela esperança de Brasília. Na eleição de outubro de 1955, os habitantes do Rio não deram a maioria para Juscelino, mas ele conseguiu apaziguar, fazer uma obra de conciliação e saiu majestosamente da cidade para Brasília.

    Mas as pessoas que vieram para a construção da cidade, os trabalhadores, sofreram muito, não?

    A gente não deve ser ingênuo. Por trás do discurso de que tudo era possível em Brasília, no momento da construção, havia condições de trabalho terríveis. Nos últimos meses, pessoas trabalhavam 18 horas por dia. O DF, como canteiro de obras, não pertencia ainda à União. Tudo que era direito trabalhista não seguia as regras da União. Dependia da Novacap, companhia de construção da nova capital. Tinha polícia privada. Não tinha direito de greve. Houve massacres de pessoas. Não podemos ser ingênuos: essas encenações tinham por objetivo também mascarar e apagar toda possibilidade de contestação. Houve contestações, políticas e populares, mas foram apagadas durante o tempo da mudança.

    Qual argumento para não aplicar a legislação trabalhista no DF durante a construção da cidade?

    Isso não é uma invenção do JK. Os grandes empreendimentos, em outros países também, utilizam o recurso do tempo específico da construção para impor outras leis que as do país. Nas cidades industriais é a companhia industrial que manda suas próprias leis durante a construção. No Brasil, Porto Velho foi fundada por uma empresa americana: dentro de Porto Velho, as leis eram da sociedade americana.

    Como o senhor disse, havia uma crítica forte sobre os gastos públicos com a construção da cidade. De onde vinha o dinheiro? Que impacto econômico essa obra gigantesca teve para o país?

    Parte veio de empréstimos e financiamentos dos Estados Unidos, outra parte vem do não respeito das regras orçamentárias, gastando-se mais do que o orçamento oferecia. O governo JK criou dívidas, sem dúvida nenhuma. Mas, apesar das críticas que devem ser feitas à cidade, a gente não pode negar que Brasília é um sucesso: ampliou o deslocamento da atividade econômica e da população para o interior do país. Há momentos em que os Estados fazem esses esforços econômicos, gastando mais do que têm, mas esse investimento vai ter retorno a médio e longo prazos. A gente não pode simplesmente olhar a curto prazo, onde domina o discurso do equilíbrio. Na lógica do Estado, é importante, às vezes, fazer investimentos maiores cujos resultados vão levar mais tempo. Sempre vai depender da escala de tempo a partir da qual a gente vai observar o sucesso. Essa escala continua correndo.

    Traços do arquiteto e do urbanista: a dupla Oscar Niemeyer e Lúcio Costa

    Traços do arquiteto e do urbanista: a dupla Oscar Niemeyer e Lúcio CostaArquivo Público do DF

    A interiorização do país também fortaleceu o agronegócio. Essa era uma das intenções também de JK?

    Era e não era o projeto do JK. Só que aqui é mais difícil julgar: Juscelino não podia se recandidatar em 1960, então não houve tempo de formalizar o efeito de Brasília depois da construção. Mas já tinha preparado sua candidatura para 1965, quando novas eleições iam ser organizadas. Vou dar um exemplo: em torno da estrada Belém-Brasília, que considerava ser uma espinha dorsal para o desenvolvimento do país, na visão dele, seriam distribuídos pequenos lotes para pequenos agricultores. Se não esqueceu a escala do grande fazendeiro, o que hoje chamamos de agronegócio, a escala do pequeno agricultor mobilizava também JK.

    Alguns intelectuais brasileiros, notadamente Gilberto Freyre, criticaram uma possível falta de brasilidade no traçado e nas construções de Brasília. O senhor entende que essas críticas eram justas?

    Ao falar sobre identidade brasileira, Gilberto Freyre considera que a construção de Brasília vem coroar a construção histórica do Brasil, passando dos arquipélagos brasileiros, com todas as diferenças, a uma nação com identidade comum (daí o título do livro dele: Brasis, Brasil, Brasília). Sobre o traçado de Brasília, precisamos distinguir urbanismo e arquitetura. Lúcio Costa sugeriu o recurso do urbanismo modernista da metade do século 20, ancorado numa ideia humanista. Ao mesmo tempo não podemos esquecer que responde a um edital: criar uma cidade para 500 mil pessoas, capaz de hospedar tanto o ministro como seu motorista. Pensar essa diversidade, pensar também a articulação entre o espaço de moradia e o espaço do poder, foi um grande desafio. Desde o início dos anos 1950, marcados pelo suicídio do Presidente Vargas e o golpe legitimista do General Lott, havia uma forte resistência dos militares aos avanços sociais da democracia. A noção de monumentalidade, tão importante para a construção de uma capital, tomou no Brasil dos anos 1950 um outro sentido.

    Por quê?

    O recurso à monumentalidade para os prédios do poder público fazia correr o risco de apoiar um poder forte e intervencionista. A maioria dos urbanistas que se candidataram diziam que o lugar do poder devia ter um espaço menor dentro da cidade e apenas manifestar a presença do povo. Lucio Costa inventa uma solução original, a partir de dois recursos primeiro, o uso do triângulo, em que ele vai colocar em cima do triângulo o Congresso, a representação do poder do povo, e embaixo, os dois poderes que se vigiam, o Executivo e o Judiciário. Essa ideia do triângulo e da valorização do poder do Congresso é uma maneira de responder a essa questão fundamental na época, de qual é o lugar do poder na cidade. Havia uma nobreza no gesto do Lucio Costa. Depois ele foi criticado sobre a questão das residências. Ele tentou justapor pessoas de níveis sociais diferentes dentro da mesma unidade. Deste ponto de vista, ele não traz nenhuma novidade, isso vem das recomendações dos congressos de arquitetura modernista: dentro da cidade, tem de ter espaço para se deslocar, se divertir, para trabalhar e para dormir. Ele vai recuperar isso.

    Essa ideia foi bem sucedida?

    Podemos considerar que não foi a parte a mais pensada. Por isso, não foi bem-sucedida. Quando volta a Brasília, em 1988, para revistar a cidade 20 anos após o começo das obras, ele conclui que a vida foi mais forte. Ele teve a humildade de reconhecer o que a gente vê muito bem em Brasília. Apesar de regras urbanísticas constrangedoras, definindo por exemplo os espaços para o deslocamento dos pedestres e dos carros, vimos aparecer com o tempo trilhos dos pedestres que atravessam na grama. A gente vê outras maneiras de viver que começaram a aparecer. De fato, foi um urbanismo rígido, que suscitou a engenhosidade da população.

    Se a gente fala agora da arquitetura, podemos observar duas escalas. A arquitetura majestosa dos monumentos dos poderes: uma coisa maravilhosa, fascinante, apaixonante. E tem a arquitetura interna das moradias. Oscar Niemeyer, que era comunista, considerava inadmissível essa história de ter quarto de empregada na segunda metade do século 20. Decidiu que ia suprimir o quarto de empregada. A Novacap disse que não podia. Ele manteve, mas criando portas de 1m10, 1m20 pra entrar no quarto de empregada. Como as pessoas continuaram a ter quartos de empregada, ele piorou sem querer a condição das empregadas.

    Uma crítica recorrente a Brasília é a segregação, uma disparidade econômica muito grande, com indicadores sociais muito distantes entre o Plano Piloto e a maioria das regiões administrativas, as chamadas cidades-satélites. Essa segregação era prevista no projeto inicial da cidade?

    Brasília sempre foi uma cidade segregada. Havia essa crença um pouco ingênua de que a gente ia construir canteiros de obras para os operários e engenheiros e, uma vez a construção acabada, ia ser tudo destruído. A Vila Planalto, que está dentro do Plano Piloto, atrás do Congresso, era o lugar dos engenheiros. Tinha também o Núcleo Bandeirante, o lugar dos operários. No início, a Novacap recrutava pessoas nas grandes metrópoles, Rio, São Paulo e Belo Horizonte, que hospedava em canteiro de obras controlados. Quando decidiu acelerar o ritmo da construção para poder inaugurar na data prevista, a Novacap e o governo fizeram apelo ao povo para participar da construção da capital. A partir desta decisão, mais ou menos em 1959, a Novacap não controlava mais a instalação dos candangos. As pessoas se aglutinavam fora do Plano Piloto e se mobilizavam para ficar uma vez a cidade inaugurada. No dia 21 de abril de 1960, o DF tinha 128 mil habitantes. Menos da metade morava no Plano Piloto. Ou seja, o DF já nasce segregado entre o Plano Piloto e as cidades-satélites. É importante lembrar que o edital previa a criação de cidades-satélites, uma vez a população do Plano Piloto alcançasse 500 mil habitantes. Mas surgiram antes mesmo do Plano Piloto. A realidade foi mais forte.

    Brasília é apresentado como símbolo da modernidade, que tinha como ambição dar um salto de 50 anos em cinco anos de governo. Mas essa modernidade foi construída por pessoas que representavam o arcaísmo que o Brasil queria apagar. Afinal houve uma dialética entre modernidade e arcaísmo. Não tem modernidade nem arcaísmo. Pra mim, como historiador, é um espelho maravilhoso do Brasil, onde se articulam vários níveis de realidade e de imaginário. Essa construção mestiça nasceu na luta e a luta continua.

    Brasília sofre com críticas constantes de que é uma cidade sustentada pelo restante do país, muitas vezes vista apenas como uma cidade administrativa, em que tudo gira em torno do poder, ignorando o dia a dia das pessoas que não tem nada a ver com essa realidade. Vista como a cidade responsável pelos problemas políticos do país. Essa imagem pode ser desconstruída?

    Sempre houve debate de que Brasília vive do dinheiro do Brasil. Mas não é isso. Penso na UnB, um projeto maravilhoso idealizado por Darcy Ribeiro, que foi fundamental para repensar o ensino fundamental no Brasil, o ensino da diversidade. A gente não pode olhar apenas a partir dessa leitura custo-benefício. Brasília investiu em educação, em saúde pública, deu nascimento a uma rede viária fundamental também para a vida social econômica. À essa crítica, que fazia a UDN nos anos 1950, e que continua hoje a lógica neoliberal, temos que opor a importância da lógica pública, que não responde às mesmas escalas de tempo.

    Essa ideia de Brasília como cidade onde todos os sonhos podem ser realizados ainda se sustenta?

    Minha vivência com Brasília foi do fim dos anos 80 ao fim dos anos 90. Nessa época funcionava bem. Me lembro de Ceilândia, que era a capital dos folhetos de cordel, continuando imprimir poemas populares para atrair Nordestinos até esta terra da felicidade. Hoje Brasília se transformou: esse efeito do imaginário de Brasília como cidade em que tudo é possível se esgotou um pouco. Porque surgiu também uma coisa chamada corrupção entre realidade e narrativa. Isso fez com que se perdesse um pouco o discurso de Brasília como a capital da conciliação e da esperança.

  • Papa Francisco morreu de AVC e insuficiência cardíaca

    Papa Francisco morreu de AVC e insuficiência cardíaca

    O Vaticano confirmou, nesta segunda-feira (21), que o papa Francisco, morto nas primeiras horas da manhã, foi vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), seguido de uma insuficiência cardíaca irreversível. A informação, até então especulada por veículos da imprensa italiana, foi oficialmente divulgada pelo diretor da Direção de Saúde e Higiene do Estado da Cidade do Vaticano, professor Andrea Arcangeli.

    Cardeal Orani João Tempesta durante a missa em homenagem ao Papa Francisco, nesta segunda-feira, na Catedral Metropolitana de São Sebastião

    Cardeal Orani João Tempesta durante a missa em homenagem ao Papa Francisco, nesta segunda-feira, na Catedral Metropolitana de São SebastiãoBia Borges/Ofotográfico/Folhapress

    De acordo com o comunicado, o pontífice sofreu um mal súbito por volta das 7h (2h no horário de Brasília), após acordar aparentemente bem em sua residência na Casa Santa Marta, onde vivia desde o início de seu pontificado, em 2013. Meia hora depois, às 7h35, foi constatado o óbito. O AVC, que levou ao coma e ao colapso cardiovascular, ocorreu no contexto de um quadro clínico já fragilizado por problemas cardiocirculatórios e respiratórios recorrentes.

    Últimos dias

    Francisco havia enfrentado um período prolongado de internação no Hospital Gemelli, em Roma, para tratar infecções pulmonares e pneumonia bilateral. Durante os mais de 30 dias em que esteve sob cuidados intensivos, houve momentos em que os médicos cogitaram suspender tratamentos ativos, considerando o avanço da doença e a fragilidade de seu organismo, e passar a oferecer apenas cuidados paliativos.

    Mesmo assim, o papa demonstrava vontade de retornar ao Vaticano, especialmente à sua residência habitual na Casa Santa Marta, um edifício modesto dentro dos muros da Santa Sé, que escolheu como símbolo de sua opção por uma Igreja simples e próxima do povo. Foi lá que passou seus últimos momentos, acompanhado por membros próximos da equipe médica e da Casa Pontifícia.

    Sé Vacante

    Conhecido popularmente como derrame, o Acidente Vascular Cerebral ocorre quando o fluxo de sangue ao cérebro é interrompido, causando a morte de células nervosas. Pode ter origem em uma obstrução de vasos sanguíneos (AVC isquêmico) ou na ruptura desses vasos (AVC hemorrágico). O tipo exato que acometeu o papa não foi especificado no comunicado do Vaticano, mas o quadro evoluiu rapidamente para coma e falência cardíaca, segundo o relatório médico.

    A confirmação da causa da morte deve encerrar as especulações que circularam desde as primeiras horas do dia, especialmente na imprensa italiana. Agora, a Santa Sé inicia os ritos solenes previstos para a Sé Vacante, período entre a morte de um papa e a eleição de seu sucessor. O corpo de Francisco será velado na Basílica de São Pedro e o funeral deve ocorrer dentro dos próximos dias. Um conclave, com cerca de 120 cardeais votantes, deve decidir o próximo papa entre 15 e 20 dias. Entre os participantes estão sete cardeais brasileiros.

    O papa argentino Jorge Mario Bergoglio, o primeiro das Américas e o primeiro jesuíta a ocupar o trono de Pedro, faleceu aos 88 anos, após 12 anos de pontificado marcados por reformas, gestos de humildade e um esforço contínuo pela paz, pela justiça social e pela proximidade com os mais pobres.

    Papa abriu portas e quebrou muros, diz vaticanista

  • Papa Francisco pediu lápide simples; leia o testamento

    Papa Francisco pediu lápide simples; leia o testamento

    O último pedido do papa Francisco é um retrato da simplicidade e da devoção que marcaram seu pontificado. Em testamento divulgado pelo Vaticano, o pontífice deixou clara a sua vontade: quer ser sepultado na Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma igreja pela qual sempre demonstrou profundo afeto e que visitou em seu primeiro dia como papa, em 14 de março de 2013.

    Papa Francisco fez orações, no último dia 12, na basílica onde será sepultado

    Papa Francisco fez orações, no último dia 12, na basílica onde será sepultadoVatican Media

    A escolha da Basílica de Santa Maria Maior, a mais antiga igreja do Ocidente dedicada à Virgem Maria, é carregada de simbolismo. Francisco costumava visitá-la antes e depois de cada viagem apostólica e em momentos delicados de sua saúde, como após internações hospitalares. Foi lá também que ele se dirigiu ao deixar o hospital Gemelli, em sua última internação, em março.

    No documento, o papa expressa seu desejo de repousar esperando o dia da ressurreição no nicho do corredor lateral da basílica, entre a Capela Paulina onde está o ícone da Salus Populi Romani, tão caro a ele e a Capela Sforza. E, fiel à sua humildade, determinou: “O túmulo deve ser no chão; simples, sem decoração especial e com uma única inscrição: Franciscus.”

    O papa faleceu aos 88 anos de idade na manhã desta segunda-feira (21), em Roma, vítima de um acidente vascular cerebral e de insuficência cardíaca.

    Veja a íntegra do testamento:

    “Papa Francisco

    Miserando atque Eligendo

    Em Nome da Santíssima Trindade. Amém.

    Sentindo que se aproxima o ocaso da minha vida terrena e com viva esperança na Vida Eterna, desejo expressar a minha vontade testamentária somente no que diz respeito ao local da minha sepultura.

    Sempre confiei a minha vida e o ministério sacerdotal e episcopal à Mãe do Nosso Senhor, Maria Santíssima. Por isso, peço que os meus restos mortais repousem, esperando o dia da ressurreição, na Basílica Papal de Santa Maria Maior.

    Desejo que a minha última viagem terrena se conclua precisamente neste antiquíssimo santuário Mariano, onde me dirigia para rezar no início e fim de cada Viagem Apostólica, para entregar confiadamente as minhas intenções à Mãe Imaculada e agradecer-Lhe pelo dócil e materno cuidado.

    Peço que o meu túmulo seja preparado no nicho do corredor lateral entre a Capela Paulina (Capela da Salus Populi Romani) e a Capela Sforza desta mesma Basílica Papal, como indicado no anexo.

    O túmulo deve ser no chão; simples, sem decoração especial e com uma única inscrição: Franciscus.

    As despesas para a preparação da minha sepultura serão cobertas pela soma do benfeitor que providenciei, a ser transferida para a Basílica Papal de Santa Maria Maior e para a qual dei instruções apropriadas ao Arcebispo Rolandas Makrickas, Comissário Extraordinário do Cabido da Basílica.

    Que o Senhor dê a merecida recompensa àqueles que me quiseram bem e que continuarão a rezar por mim. O sofrimento que esteve presente na última parte de minha vida eu o ofereço ao Senhor pela paz no mundo e pela fraternidade entre os povos.

    Santa Marta, 29 de junho de 2022″

    A Basílica de Santa Maria Maggiore

    O local já abriga os restos mortais de outros sete papas entre eles Clemente VIII, Paulo V e Pio V mas Francisco faz questão de uma sepultura despojada, sem honras além das indispensáveis. As despesas, segundo ele mesmo, devem ser cobertas por um benfeitor previamente designado, com instruções repassadas ao arcebispo Rolandas Makrickas, comissário extraordinário do Cabido da Basílica.

    Situada no centro histórico de Roma, a Basílica de Santa Maria Maggiore é uma das quatro basílicas papais e foi construída por ordem do papa Libério, no século IV. Segundo a tradição, sua origem está ligada a uma visão mariana e a uma improvável nevasca em pleno verão, em 5 de agosto razão pela qual também é chamada de “Nossa Senhora das Neves”.

    O templo foi erguido após o Concílio de Éfeso (431), que proclamou o dogma da maternidade divina de Maria, e é considerado o mais antigo santuário mariano do Ocidente. Seu interior abriga tesouros artísticos e históricos, incluindo um baldaquino monumental sobre o altar-mor que só pode ser utilizado pelo papa e por alguns clérigos autorizados.

    Embora esteja fora do território do Vaticano, a basílica é propriedade da Santa Sé e goza de imunidade diplomática garantida pelo Tratado de Latrão de 1929. É também Patrimônio Mundial da Unesco desde 1980.

    A basílica é confiada ao cuidado de um arcipreste atualmente o arcebispo Stanislaw Rylko, com Rolandas Makrickas como coadjutor. Padres dominicanos e redentoristas também atuam no local, celebrando missas e ouvindo confissões diariamente.

  • Deputado Zé Trovão propõe seguro por perda de renda em faculdades

    Deputado Zé Trovão propõe seguro por perda de renda em faculdades

    Dep. Zé Trovão (PL - SC)

    Dep. Zé Trovão (PL – SC)Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

    O projeto de lei 4.645/24 estabelece a inclusão de um seguro nas anuidades ou semestralidades dos cursos de educação superior. Este seguro cobriria os custos dos encargos educacionais em situações como morte, incapacidade temporária ou permanente, ou perda de renda do responsável financeiro pelo estudante.

    O deputado Zé Trovão (PL-SC), autor da proposta, afirma que “não é raro os alunos abandonarem o curso superior quando suas famílias passam por dificuldades”.

    Ele argumenta que “por essa razão, para garantir maior segurança financeira para alunos em situações de vulnerabilidade, como morte, doença ou perda de renda do responsável financeiro, o seguro educacional se apresenta como uma medida essencial para garantir a continuidade dos estudos em momentos de crise, contribuindo para a permanência e conclusão dos cursos na educação superior”.

    A proposta, em tramitação na Câmara dos Deputados, altera a lei 9.870/99, que regulamenta as anuidades escolares.

    O texto será analisado em caráter conclusivo pelas Comissões de Educação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para se tornar lei, precisa ser aprovado pela Câmara e pelo Senado.

  • De “maligno” a “honra”: Milei presta tributo ao Papa Francisco

    De “maligno” a “honra”: Milei presta tributo ao Papa Francisco

    A morte do Papa Francisco, anunciada nesta segunda-feira (21), provocou reações em todo o mundo, mas nenhuma tão carregada de simbolismo e contradição quanto a do presidente da Argentina, Javier Milei. Após anos de críticas duras ao pontífice argentino, incluindo ofensas como “imbecil”, “nefasto” e até “representante do maligno”, Milei emitiu um comunicado solene em que se despede de Francisco com respeito e reverência.

    Em um gesto de reaproximação, Milei foi recebido pelo Papa Francisco em 2024 no Vaticano

    Em um gesto de reaproximação, Milei foi recebido pelo Papa Francisco em 2024 no VaticanoFolhapress/Folhapress

    “Foi com profunda tristeza que soube nesta triste manhã que o papa Francisco, Jorge Bergoglio, faleceu hoje e agora descansa em paz. Apesar das diferenças que hoje parecem pequenas, ter podido conhecê-lo em sua bondade e sabedoria foi uma verdadeira honra para mim”, escreveu Milei em suas redes sociais. “Como presidente, como argentino e, fundamentalmente, como homem de fé, despeço-me do Santo Padre e estou ao lado de todos nós que hoje lidamos com esta triste notícia”, acrescentou.

    O tom contrasta fortemente com declarações passadas. Em diferentes momentos da vida pública, o presidente argentino acusou o papa de promover o comunismo, ser condescendente com ditaduras e até de ocupar a liderança da Igreja Católica como representante do maligno. As falas chegaram a gerar repúdio público de setores católicos na Argentina, com missas organizadas em defesa de Francisco durante a campanha presidencial de 2023.

    Do confronto à aproximação

    A inflexão no discurso de Milei começou logo após sua vitória eleitoral em novembro de 2023. Dias depois de eleito, o presidente recebeu um telefonema de Francisco que o parabenizou e manifestou votos de união para o país. A partir dali, as críticas deram lugar a gestos diplomáticos.

    O ápice da reconciliação ocorreu em fevereiro de 2024, quando Milei foi ao Vaticano para acompanhar a canonização da primeira santa argentina, Mama Antula. O presidente se encontrou pessoalmente com o papa, a quem ofereceu alfajores, doces típicos argentinos, como símbolo de reaproximação e também participou de uma reunião privada no dia seguinte, que durou pouco mais de uma hora.

    Segundo o próprio Milei, a experiência foi uma honra. Ele também passou a destacar a atuação de Francisco em temas caros à base conservadora, como a defesa da vida desde a concepção, a austeridade administrativa da Santa Sé e o estímulo à espiritualidade entre os jovens. Esses pontos foram reiterados na nota oficial do governo argentino, divulgada nesta segunda-feira:

    “A República Argentina, um país de longa tradição católica e terra do papa Francisco, lamenta profundamente a partida de Sua Santidade. O presidente da Nação acompanha, neste momento triste, todos aqueles que professam a fé católica”.

    Um papa que nunca voltou

    Embora argentino, Jorge Mario Bergoglio nunca visitou seu país natal durante os mais de dez anos de papado fato que gerou especulações, especialmente diante do clima político polarizado. A ausência alimentou teorias e críticas, principalmente vindas da ala mais conservadora da sociedade argentina, onde Milei construiu boa parte de sua base eleitoral.

    Em declarações recentes, o próprio Francisco explicou que a visita à Argentina esteve nos planos em diversas ocasiões, mas foi adiada por uma série de razões. Em entrevista ao canal mexicano N+, o papa minimizou as críticas de Milei e disse que, na política, é necessário distinguir entre o que se diz em campanha e o que se faz de fato.

    Veja a publicação de Milei a respeito da morte do Papa Francisco:

  • Senado: Na CAE, Galípolo discute perspectivas monetárias

    Senado: Na CAE, Galípolo discute perspectivas monetárias

    Gabriel Muricca Galípolo, presidente do Banco Central.

    Gabriel Muricca Galípolo, presidente do Banco Central.Roque de Sá/Agência Senado

    O Senado Federal, por meio da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), realizará uma audiência pública na próxima terça-feira (22) com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. O objetivo principal da sessão é discutir as diretrizes, a execução e as perspectivas futuras da política monetária brasileira.

    A audiência está agendada para as 10h e cumpre o que está previsto no Regimento Interno do Senado, que estabelece a participação do presidente do Banco Central em reuniões da CAE pelo menos quatro vezes ao ano, nos meses de fevereiro, abril, julho e outubro.

    Para promover a interação com a sociedade, o Senado disponibiliza canais para que os cidadãos encaminhem perguntas e comentários. O contato pode ser feito por meio do telefone da Ouvidoria do Senado (0800 061 2211) ou pelo Portal e-Cidadania. As questões enviadas poderão ser lidas e respondidas pelos senadores e debatedores durante a audiência ao vivo.

    O Senado Federal oferece um certificado de participação para aqueles que acompanharem o evento. Este documento pode ser utilizado como comprovante de horas complementares em cursos universitários, por exemplo. Além disso, o Portal e-Cidadania possibilita que os cidadãos expressem suas opiniões sobre projetos em tramitação no Senado e apresentem sugestões para novas leis.

  • Papa Francisco abriu portas e derrubou muros, diz vaticanista

    Papa Francisco abriu portas e derrubou muros, diz vaticanista

    Para o vaticanista italiano Salvatore Cernuzio, integrante da redação do Vatican News e colaborador de veículos como La Stampa e Zenit, o papado de Francisco não deve ser lembrado apenas pelas “primeiras vezes”, mas pelos processos que iniciou. Em um balanço detalhado dos 12 anos do pontífice argentino à frente da Igreja Católica, Cernuzio o descreve como um líder que rompeu protocolos, desafiou tradições e transformou o próprio conceito de papado.

    Papa Francisco entre os escombros de Mosul, em viagem ao Iraque, em 2021

    Papa Francisco entre os escombros de Mosul, em viagem ao Iraque, em 2021Vatican Media

    “Francisco não buscou ser o primeiro em algo. Seu objetivo foi abrir caminhos que outros possam seguir ou não ignorar”, escreve o jornalista, que acompanhou de perto o pontífice em dezenas de viagens e decisões históricas”, em artigo publicado no Vatican News, portal de comunicação do Vaticano.

    O Papa Francisco morreu na madrugada desta segunda-feira (21), no Vaticano, aos 88 anos. Ele enfrentava problemas de saúde agravados por uma pneumonia. A causa da morte ainda não foi anunciada oficialmente. Um conclave deve ser convocado para daqui a 15 ou 20 dias para a escolha do sucessor do papa argentino. Sete cardeais brasileiros estão aptos a participar da votação e podem, em tese, ser escolhidos como sumo pontífice.

    Um papa que não esperou

    Francisco foi o primeiro papa latino-americano, jesuíta e o primeiro a escolher o nome do santo de Assis. Também foi o primeiro a liderar a Igreja com seu antecessor ainda vivo. Mas, para Cernuzio, essas “estreias” são secundárias diante da transformação que o pontífice provocou na forma de exercer o ministério petrino.

    “Ele não governou com manuais ou fórmulas, mas com gestos”, afirma o vaticanista, ao destacar ações como as visitas a presídios e periferias, os telefonemas pessoais a fiéis e o estilo despojado optando por viver na Casa Santa Marta, e não no Palácio Apostólico.

    Processos, não conquistas

    Segundo vaticanista, ao longo de seu pontificado, Francisco foi além da retórica. Deu forma concreta a ideias como sinodalidade (participação e comunhão de todos os membros do povo de Deus na missão da Igreja), fraternidade universal e uma Igreja em saída, voltada aos pobres, aos migrantes e aos marginalizados.

    Cernuzio destaca que o papa preferia plantar sementes a colher aplausos. Exemplo disso são os sínodos ampliados, com escuta popular e participação de mulheres, as reformas da Cúria Romana e as mudanças no tratamento de abusos sexuais, que incluíram o fim do segredo pontifício e novas regras de responsabilização para bispos.

    “Esses processos são, em grande parte, irreversíveis. São movimentos de fundo que moldarão a Igreja do futuro”, analisa o jornalista, autor do livro O véu do silêncio Abusos, violências, frustrações na vida religiosa feminina.

    Pés no chão e nas periferias

    Segundo Cernuzio, o modo de ser de Francisco é marcado por uma boa obstinação que o levou a visitar lugares esquecidos ou considerados perigosos, como o Iraque em 2021, a República Centro-Africana em 2015 e os campos de refugiados em Lesbos. Suas viagens, ao todo 47 internacionais, foram expressão concreta de seu compromisso com a paz, o diálogo inter-religioso e a dignidade humana.

    “Mesmo com idade avançada e limitações físicas nos últimos anos, Francisco manteve uma intensa agenda. Aos 87 anos, viajou ao Sudeste Asiático por duas semanas, num roteiro exaustivo de mais de 30 mil quilômetros. Era uma teimosia guiada pela fé. Ir onde ninguém foi, dialogar com quem ninguém ouvia, denunciar o que ninguém queria ver.”

    Pastor em tempos de guerra

    O vaticanista também destaca a ação do papa diante dos conflitos armados especialmente na Ucrânia e no Oriente Médio. Francisco foi incansável em seus apelos por cessar-fogo, orações pela paz e negociações diplomáticas. Visitou embaixadas, ligou para líderes e insistiu em que nenhuma guerra é justa.

    Cernuzio lembra o gesto histórico em 2014, quando o papa beijou os pés de líderes do Sudão do Sul, implorando por paz. E o momento simbólico da Statio Orbis, em março de 2020, quando, sozinho sob a chuva em plena pandemia, atravessou a Praça São Pedro em silêncio, como quem carregava a dor do mundo.

    “Essa imagem se tornou o retrato de um pontificado: um homem frágil, mas firme, caminhando em meio à tempestade com esperança.” 

    Críticas e incômodo

    Apesar de sua popularidade global e de gestos pastorais que conquistaram muitos fiéis, o papa Francisco também enfrentou duras críticas, tanto dentro quanto fora da Igreja. Para Cernuzio, muitos dos gestos e decisões inovadoras de Francisco como a abertura para que mulheres ocupassem cargos de liderança no Vaticano, a aproximação com pessoas LGBTQIA+ e o estilo pastoral menos formal provocaram desconforto em setores mais conservadores.

    A remodelação do papado em termos simbólicos, incluindo a residência fora do Palácio Apostólico, o uso de roupas mais simples e a linguagem direta em transmissões ao vivo, foi vista por alguns como um rompimento exagerado com a tradição.

    Incômodo

    As reformas administrativas também foram alvo de oposição, segundo o vaticanista. Cernuzio lembra que o papa foi criticado por questionar protocolos antigos, alterar o funcionamento da Cúria Romana, e por sua atuação firme no combate a abusos sexuais cometidos por membros do clero inclusive ao estabelecer regras mais rígidas de responsabilização episcopal.

    Além disso, seu posicionamento em temas políticos e sociais, como o apelo por desarmamento e a crítica aos senhores da guerra, renderam-lhe resistência entre líderes de governo e até mesmo em segmentos eclesiais. Em meio a essas tensões, Francisco manteve o tom firme, recorrendo ao bom humor, que o vaticanista descreve como aquilo que mais se aproxima da graça de Deus.

    Um pontificado que ainda fala

    Para Cernuzio, o legado de Francisco não se mede em números ou decretos, mas no modo como desafiou a Igreja e o mundo a olhar para os que são esquecidos. “Com humor, ternura e coragem, assinala o vaticanista, Jorge Mario Bergoglio renovou a linguagem da fé, sem abrir mão de sua essência. Ele quis uma Igreja que acolhe todos, todos, todos como repetia. E, com isso, abriu portas que dificilmente serão fechadas.”

    Veja algumas das principais viagens do Papa Francisco.

    Lampedusa (2013)

    Na primeira viagem fora de Roma como papa, homenageou os migrantes mortos no Mediterrâneo e lançou uma coroa de flores no mar em memória dos que perderam a vida tentando chegar à Europa.

    Brasil (2013)

    Em sua primeira viagem internacional como papa, visitou o Rio de Janeiro durante a Jornada Mundial da Juventude. A viagem ficou marcada pela imagem do papa cercado pela multidão no papamóvel.

    Terra Santa (2014)

    Visita ecumênica e diplomática com apelo pela paz entre israelenses e palestinos.

    Cuba e Estados Unidos (2015)

    Buscou selar a reaproximação diplomática entre os dois países. Em Havana, teve encontro histórico com o patriarca ortodoxo russo Kirill. Na ocasião, os dois assinaram a Declaração de Havana, em repúdio aos ataques sofridos pela comunidade cristã no Oriente Médio. 

    República Centro-Africana (2015)

    Em meio à guerra civil, abriu ali a Porta Santa do Jubileu da Misericórdia.

    Suécia (2016)

    Participou das comemorações dos 500 anos da Reforma Luterana em Lund, fortalecendo o diálogo com os protestantes.

    Lesbos (2016 e 2021)

    Duas visitas ao campo de refugiados da ilha grega, reforçando sua mensagem sobre acolhimento aos migrantes.

    Emirados Árabes Unidos (2019)

    Assinatura da Declaração sobre a Fraternidade Humana com o Grão Imame de Al-Azhar, Al-Tayeb, considerada um marco do diálogo islâmico-cristão.

    Iraque (2021)

    Na primeira visita de um papa ao país, passou por Bagdá, Ur, Erbil, Mosul e Qaraqosh. Classificou a viagem de risco em plena pandemia como a mais bela.

    Canadá (2022)

    Pedido de perdão às comunidades indígenas pelos abusos cometidos por representantes da Igreja em escolas residenciais.

    África Central (2023)

    Viagem à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul. Esta última contou com presença de líderes de outras tradições cristãs, simbolizando esforço ecumênico pela paz.

    Sudeste Asiático (2024)

    Viagem mais longa de seu pontificado: Indonésia, Papua-Nova Guiné, Timor-Leste e Cingapura. Envolveu temas como ecologia, diálogo inter-religioso, reconciliação e desenvolvimento sustentável.

  • Brasília faz 65 anos e divide com você as histórias da  nossa capital

    Brasília faz 65 anos e divide com você as histórias da nossa capital

    Brasília completa 65 anos neste 21 de abril. Sonhada por Juscelino Kubitschek e erguida em tempo recorde, a cidade foi projetada para simbolizar um novo Brasil. Instalada no Planalto Central, é marcada pelo traçado moderno de Lúcio Costa e pelas formas ousadas de Oscar Niemeyer, que deram identidade à capital com colunas curvas, vitrais coloridos e eixos que lembram um avião.

    Muito além do concreto, Brasília se tornou um cenário vivo da política nacional. Berço do poder, já foi pano de fundo para manifestações históricas, decisões marcantes e também para o cinema e a televisão.

    Com tramas que atravessam questões sociais e histórias de amor, o Congresso em Foco reuniu as melhores produções que tiveram a capital federal como palco ou plano de fundo para você, que deseja conhecer mais da cidade construída em quatro anos.

    Brasília nos anos 60, recentemente inaugurada

    Brasília nos anos 60, recentemente inauguradaArquivo Público do DF

    1- Eduardo e Mônica (2020)

    Classificação indicativa: 14 anos

    Gênero: Romance/Drama

    Onde assistir: Globoplay

    Inspirado na canção da Legião Urbana, o filme conta a história de um casal improvável que tenta equilibrar diferenças sociais, culturais e de idade em uma Brasília dos anos 1980. A cidade aparece como pano de fundo vibrante, entre festas universitárias e encontros na Universidade de Brasília (UnB).

    2- Faroeste Caboclo (2013)

    Classificação indicativa: 16 anos

    Gênero: Drama/Ação

    Onde assistir: Youtube

    Baseado em outra música da Legião Urbana, o longa acompanha João de Santo Cristo, migrante do Nordeste que tenta recomeçar a vida em Brasília, mas é arrastado pela violência e o tráfico. A narrativa mistura romance, tragédia e crítica social.

    3- Branco Sai, Preto Fica (2014)

    Classificação indicativa: 16 anos

    Gênero:Drama/Documentário

    Onde assistir: Google Play

    Com estética experimental, o filme mistura ficção científica e realidade ao retratar os impactos de uma violenta ação policial em uma periferia de Brasília. A obra denuncia o racismo estrutural e o abandono estatal, com um forte viés político e poético.

    4- A Idade da Terra (1980)

    Classificação indicativa: 14 anos

    Gênero: Drama

    Onde assistir: Prime Video

    O longa-metragem – o último filme de Glauber Rocha – apresenta quatro personagens que representam diferentes versões de Cristo: um indígena, um negro, um guerrilheiro latino e um Cristo ocidental, em confronto com os sistemas de poder, colonização e violência. A trama se espalha por diferentes regiões do país, incluindo cenas em Brasília.

    5- Somos Tão Jovens (2013)

    Classificação indicativa: 12 anos

    Gênero: Biografia/Drama

    Onde assistir: Prime Video

    A cinebiografia de Renato Russo mostra o nascimento da Legião Urbana e a efervescência cultural de Brasília nos anos 1980. Entre festas, protestos e descobertas pessoais, o longa revela os dilemas do jovem que se tornaria ícone do rock nacional.

    6- O Crime da 113 Sul (2021)

    Classificação indicativa: 12 anos

    Gênero: Documentário/True Crime

    Onde assistir: Globoplay

    O filme revisita um dos casos mais misteriosos da capital: o assassinato de Tânia Maria, em 1976. Com depoimentos inéditos e imagens de época, o documentário traça o perfil de uma Brasília ainda jovem, abalada por um crime sem solução.

    7- Brasília, Concreto e Poesia (2023)

    Classificação indicativa: Livre

    Gênero: Documentário

    Onde assistir: Globoplay

    Dirigido por Adirley Queirós, o documentário celebra os 60 anos da cidade com depoimentos de artistas, urbanistas e moradores das periferias. É uma visão crítica e afetiva sobre Brasília como território de sonhos, contradições e resistência cultural.

    Imagem do Curta Especial

    Imagem do Curta Especial “Brasília, Concreto e Poesia”Divulgação/Globoplay

  • Projeto prevê imposto a produtos que gerem gases poluentes

    Projeto prevê imposto a produtos que gerem gases poluentes

    Dep. Nilto Tatto (PT - SP)

    Dep. Nilto Tatto (PT – SP)Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

    Um projeto de lei complementar (PLP 29/25), de autoria do deputado Nilto Tatto (PT-SP), propõe a incidência do Imposto Seletivo sobre produtos e serviços que emitem gases de efeito estufa. A proposta visa tributar atividades econômicas que liberam gás carbônico (CO2) ou equivalente durante a produção ou comercialização, alterando a lei complementar 214/25, que regulamentou a reforma tributária. O projeto encontra-se em análise na Câmara dos Deputados.

    O cálculo do Imposto Seletivo Ambiental terá como base o volume mensal de emissões de CO2 equivalente, uma unidade que mede o impacto dos gases de efeito estufa em relação ao potencial de aquecimento global do CO2. A alíquota será definida por lei, considerando a quantidade de toneladas métricas de CO2 equivalente emitidas.

    A legislação poderá isentar ou aplicar alíquota zero à agricultura familiar, agroecologia e pequenas empresas, além de estabelecer um limite mínimo de emissões mensais para a cobrança do imposto.

    Segundo o deputado Tatto, a medida visa aumentar a competitividade das commodities agrícolas brasileiras, evitando sobretaxação pela União Europeia, que está implementando um sistema de precificação de emissões de gases de efeito estufa em importações. A implementação completa está prevista para 2034.

    “Caso o Brasil não adote um modelo efetivo, claro e rigoroso de tributação, a perda de competitividade, em especial de setores relevantes para as nossas exportações, como o agronegocio, será inevitável”, afirma Tatto.

    Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2022, citado pelo deputado, sugere que tributar as emissões de carbono é mais eficaz do que um sistema de créditos de carbono, por ser mais simples, evitar especulação financeira e promover a preservação ambiental.

    O projeto será avaliado pelas comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania, antes de ser submetido ao Plenário. Para se tornar lei, precisa ser aprovado pela Câmara e pelo Senado.

  • Papa Francisco morre aos 88 anos: legado de humildade, inclusão e paz

    Papa Francisco morre aos 88 anos: legado de humildade, inclusão e paz

    Morreu na madrugada desta segunda-feira (21) o papa Francisco, líder da Igreja Católica e primeiro pontífice oriundo das Américas, aos 88 anos. O anúncio oficial foi feito pelo Vaticano, horas após o pontífice realizar sua última aparição pública na Basílica de São Pedro, onde, com voz enfraquecida, desejou “Boa Páscoa” aos fiéis.

    O argentino Jorge Mario Bergoglio foi o primeiro papa não europeu

    O argentino Jorge Mario Bergoglio foi o primeiro papa não europeuRoberto Filho/Eleven/Folhapress

    A confirmação do falecimento foi feita pelo cardeal Kevin Farrell, Camerlengo da Câmara Apostólica, em pronunciamento na Casa Santa Marta, residência oficial do Papa. “Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e da sua Igreja. Ele nos ensinou a viver os valores do Evangelho com fidelidade, coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres e marginalizados”, disse Farrell. “Encomendamos a alma do Papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Uno e Trino”.

    Um pontificado histórico

    Com a morte de Francisco, a Igreja Católica perde um de seus líderes mais populares, reformistas e carismáticos dos últimos tempos. Jorge Mario Bergoglio, argentino de Buenos Aires e filho de imigrantes italianos, foi eleito papa em março de 2013, após a renúncia de Bento XVI.

    Tornou-se o primeiro papa jesuíta e o primeiro não europeu em mais de 1.200 anos, além de adotar o nome Francisco em homenagem a São Francisco de Assis, símbolo de humildade e cuidado com os pobres. Bergoglio morreu sem voltar à Argentina depois de ter virado papa.

    Durante seu pontificado, buscou aproximar a Igreja dos mais necessitados, modernizar o discurso da instituição e atuar como um líder moral em temas globais como migração, mudança climática e desigualdade social. Teve um papel ativo em processos diplomáticos e não hesitou em lançar apelos por cessar-fogo em conflitos armados, como na guerra entre Rússia e Ucrânia e nos ataques do Hamas a Gaza. “A soberania deve ser respeitada e garantida pelo diálogo e pela paz, não pelo ódio e pela guerra”, afirmou em uma de suas declarações.

    Avanços e polêmicas

    Francisco também entrou para a história como o papa que autorizou, ainda que com restrições, a bênção a casais do mesmo sexo. A decisão, divulgada em dezembro de 2023 pelo Dicastério para a Doutrina da Fé e com sua aprovação, permitiu que padres abençoassem uniões homoafetivas, contanto que não fizessem parte de rituais litúrgicos nem fossem confundidas com o sacramento do matrimônio.

    Segundo o documento, a bênção representa um gesto de proximidade pastoral, sem implicar aprovação formal da união. A iniciativa foi celebrada por setores progressistas e criticada por alas mais conservadoras da Igreja.

    Despedida e saúde frágil

    Nos últimos anos, Francisco enfrentou uma série de problemas de saúde, que o obrigaram a reduzir compromissos e a adotar o uso frequente de cadeira de rodas e bengala. Chegou a ser internado diversas vezes, com destaque para uma operação em 2021, quando retirou parte do cólon, e para o tratamento de pneumonia no início de 2025. Sua saúde era debilitada desde jovem, quando perdeu parte de um pulmão devido a uma pleurisia.

    Apesar disso, manteve boa parte de sua rotina, inclusive reuniões e celebrações, até os últimos dias. Em 23 de março, após 38 dias internado, ao deixar o hospital, acenou para os fiéis e agradeceu: “Obrigado a todos!”. No trajeto de volta ao Vaticano, fez uma parada na Basílica de Santa Maria Maior para orar diante do ícone de Salus Populi Romani, como forma de agradecimento.